Radiografia da Notícia
* Neurocientista mostra como medo do desconhecido, padrões aprendidos e crenças limitantes podem fazer pessoas permanecerem em empregos, relacionamentos e situações que já não fazem sentido
“Pelo menos eu tenho um emprego.” “Ruim com ele, pior sem ele.” “Não está tão bom, mas poderia ser pior.” Frases como essas parecem apenas uma tentativa de enxergar o lado positivo das situações. Em alguns casos, porém, podem revelar um comportamento menos óbvio: o apego a problemas conhecidos, mesmo quando eles já provocam sofrimento.
É o que o neurocientista, psicanalista clínico e sexólogo Betto Alves chama de “problema de estimação”, situações ruins que permanecem na vida não necessariamente porque não exista possibilidade de mudança, mas porque o desconforto conhecido pode parecer mais seguro do que a incerteza de experimentar algo novo.
“Existe uma tendência de navegar por cenários que conhecemos, inclusive quando eles são ruins. A pessoa sabe como aquele relacionamento funciona, conhece as frustrações daquele emprego e aprendeu a conviver com determinado problema. A possibilidade de mudança traz algo que o cérebro não consegue prever e, para algumas pessoas, essa incerteza pode ser mais assustadora do que continuar sofrendo de uma maneira conhecida”, explicou Betto.
Segura
Segundo o especialista, esse comportamento pode atravessar diferentes áreas da vida e influenciar desde relacionamentos amorosos até decisões profissionais e financeiras. Em comum, está uma espécie de negociação interna que transforma a permanência em uma escolha aparentemente mais segura.
No relacionamento, pode aparecer em pensamentos como “ele não é carinhoso, mas pelo menos não me agride” ou “não sou feliz, mas tenho medo de ficar sozinho”. No trabalho, surge no “pelo menos estou empregado”, mesmo quando há insatisfação permanente e nenhuma perspectiva de crescimento. Em outras situações, ganha a forma de uma sentença: “isso é o que eu consigo”, “não é para gente como eu” ou “melhor não arriscar”.
Por que o conhecido pode parecer mais seguro?
Parte dessa resistência pode ser compreendida a partir dos mecanismos naturais de proteção do cérebro. Betto explica que estruturas relacionadas ao sistema límbico, como a amígdala, participam da identificação de ameaças e das respostas de defesa. Diante de situações novas e imprevisíveis, o organismo pode reagir com medo, ansiedade e estado de alerta.
“O cérebro não avalia apenas se uma mudança pode ser boa. Ele também tenta identificar os riscos envolvidos. O desconhecido exige novas respostas, enquanto o sofrimento conhecido já tem um roteiro. É por isso que, muitas vezes, sabemos racionalmente que determinada situação precisa mudar, mas emocionalmente encontramos inúmeras justificativas para permanecer nela”, afirmou.
O resultado pode ser uma contradição bastante comum: reclamar repetidamente de um problema e, ao mesmo tempo, resistir às possibilidades concretas de solucioná-lo. “Às vezes, a pessoa não está exatamente confortável onde está. Ela apenas está familiarizada. E familiaridade não é sinônimo de felicidade.”
Nem todas as barreiras começaram em você
Além dos mecanismos de proteção, crenças construídas ao longo da vida também podem interferir na tomada de decisão. Algumas são aprendidas dentro da própria família e atravessam gerações.
Frases como “filho de pobre não precisa disso”, “dinheiro não dá em árvore”, “casamento é assim mesmo” ou “trabalho é para pagar as contas, não para ser feliz” podem parecer comentários cotidianos, mas ajudam a construir referências sobre aquilo que uma pessoa acredita que pode desejar, conquistar ou merecer.
“Existem limites que nunca foram formalmente impostos, mas foram repetidos tantas vezes que passam a funcionar como verdades. A pessoa cresce acreditando que determinadas possibilidades simplesmente não pertencem a ela”, explicou Betto.
Com o tempo, essas crenças podem interferir nas escolhas e fazer com que oportunidades sejam descartadas antes mesmo de serem experimentadas.
Há ainda outra camada. Depois de conviver durante muito tempo com determinada dificuldade, algumas pessoas passam a organizar a própria rotina, as conversas e até a identidade em torno dela. É a relação que nunca funciona, o chefe que sempre é motivo de reclamação, a carreira que nunca muda ou o projeto que permanece indefinidamente no campo do “um dia eu faço”.
Nesses casos, resolver o problema também significa enfrentar uma pergunta desconfortável: como será minha vida sem ele? “Às vezes, abandonar um problema exige abandonar também uma versão de nós mesmos que aprendemos a ser. E isso explica por que determinadas mudanças, mesmo desejadas, podem provocar medo”, disse o especialista.
Como saber se você tem um “problema de estimação”?
Betto aponta alguns questionamentos que podem ajudar a identificar quando a familiaridade está pesando mais do que o desejo de mudança:
1. Você reclama repetidamente da mesma situação, mas rejeita todas as alternativas?
Quando toda solução parece impossível, arriscada ou inadequada, vale investigar se o obstáculo está apenas nas circunstâncias ou também no medo da mudança.
2. “Poderia ser pior” virou sua principal justificativa para permanecer?
Reconhecer aspectos positivos é diferente de usar a possibilidade de um cenário pior para tolerar indefinidamente aquilo que causa sofrimento.
3. Você sabe o que não quer, mas nunca consegue definir o que gostaria no lugar?
Quando a vida fica organizada apenas em torno de evitar perdas, sobra pouco espaço para construir novos desejos e possibilidades.
4. Você repete frases sobre aquilo que “não é para você”?
Expressões como “não tenho perfil”, “não conseguiria”, “na minha família ninguém fez isso” ou “já passei da idade” podem esconder crenças e limites aprendidos.
5. A ideia de resolver o problema provoca mais ansiedade do que continuar com ele?
Esse é um dos sinais mais importantes. A mudança pode exigir decisões, novas responsabilidades e contato com o desconhecido. Permanecer, por outro lado, permite continuar seguindo um roteiro já conhecido.
Sair do conhecido não significa agir por impulso
Reconhecer um “problema de estimação” não significa abandonar um emprego no dia seguinte, terminar imediatamente uma relação ou tomar grandes decisões sem avaliar consequências. Para Betto, o primeiro movimento é perceber quais escolhas estão sendo feitas de forma consciente e quais estão sendo guiadas principalmente pelo medo.
“Inteligência emocional não é eliminar o medo. É conseguir reconhecê-lo sem permitir que ele tome todas as decisões. Há situações em que permanecer é uma escolha consciente e legítima. O problema é quando chamamos de escolha aquilo que, na verdade, é apenas medo de descobrir o que existe depois.”
Nesse processo, o especialista recomenda observar os argumentos usados para justificar a permanência, questionar crenças que parecem verdades absolutas e imaginar concretamente quais seriam os primeiros passos possíveis caso a mudança acontecesse.
“O novo gera desconforto porque não oferece garantias. Mas permanecer também é uma decisão e tem consequências. Às vezes, o maior risco não está em mudar. Está em passar anos vivendo a mesma situação simplesmente porque já aprendemos a suportá-la”, finalizou.

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